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Supressão dos trejeitos: uma técnica do corpo LGBTQ?

Supressão dos trejeitos: uma técnica do corpo LGBTQ?
Gabriel Martins Santos
dez. 2 - 6 min de leitura
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Quem nunca escutou durante a adolescência falar em “gaydar”? Ainda durante os anos 2000, havia quem se vangloriasse por conseguir identificar pessoas LGBTQ após alguns minutos de observação. 

Não há nenhum comportamento que diga imediatamente da orientação sexual ou da identidade de gênero de alguém (até mesmo as práticas sexuais, como afirmariam os g0ys e outros homens que fazem sexo com homens). Porém, o senso comum dizia o contrário. Pequenos desvios dos papéis de masculino ou feminino, como o jeito de gesticular, falar ou até mesmo sentar, eram o bastante para declarar uma sentença. 

Especialmente na adolescência, esse tribunal da normatividade poderia ter consequências graves. Bullying, isolamento, repressão e negação de si mesmo. Não é atoa que muitas dessas pessoas aprendem a suprimir os seus trejeitos para performar essa normatividade. 

Enquanto homens engrossam a voz e engolem o choro, mulheres aprendem a sentar de pernas cruzadas e falar de forma contida. Esse aprendizado muitas vezes é tácito e se transforma em uma bagagem para a idade adulta. Em diversos contextos, pode-se dizer que ele é decisivo para navegar a sociabilidade em meio à homofobia e à transfobia. Sendo assim, seria possível considerá-lo uma técnica dos corpos, especialmente os LGBTQ?

Uma cultura heteronormativa?

Essas tradições são um marco de uma sociedade heteronormativa, em que há papéis claros para cada gênero. Cada um desses comportamentos são considerados meios eficazes de atrair parceiros e formar uma família, que se configurava em um dos grandes indicadores de sucesso no século XX. 

Afinal, o casal com casa própria e filhos, com um marido provedor e uma esposa “do lar” era o que estava presente o tempo todo na mídia - nos programas de TV, radionovelas e filmes. No entanto, a performance LGBTQ da norma nunca poderia chegar a esse ideal já que direitos civis, como o casamento e a adoção eram negados. Até mesmo a ascensão na carreira poderia ser dificultada pelo preconceito nos locais de trabalho.

Por causa disso, essas pessoas precisavam olhar para outros lugares onde pudessem se desenvolver. Era necessário criar outros sistemas de valores e tradições. Um exemplo disso é a subcultura ballroom, ou dos bailes, que se fortaleceu muito nos anos 80 em diversas cidades dos Estados Unidos. Nesses lugares, as pessoas LGBTQ aprendiam não só outras formas de existir no mundo, como também a melhorar a sua performance da norma para quando fosse necessário.

A performance da norma subvertida 

Legenda: Uma das tramas da série Pose é a busca de mulheres trans por formas de sair da prostituição. Nessas situações, as personagens se vêem contestadas e desafiadas o tempo todo. Fonte da imagem: Divulgação (FX)

A subcultura ballroom gira em torno de festas onde há competições de apresentações e desfiles (“bailes”). Cada modalidade de disputa é chamada de categoria e muitas delas giram em torno de “realness”, a capacidade de praticamente criar um personagem dentro de um tema e interpretá-lo de forma fiel. Pode ser tanto algo distante, como se transformar em alguém da corte de Maria Antonieta, ou uma figura corriqueira, um homem de negócios ou uma dona de casa de classe média, por exemplo.

É claro que as categorias podem se tornar muito elaboradas. Em um contexto de pessoas LGBTQ dos anos 80, provavelmente seria impossível participar dessas competições sozinho. Por isso, outro elemento fundamental da subcultura dos bailes são as casas. 

Como muitos gays, lésbicas e pessoas trans eram abandonadas por suas famílias biológicas, elas formavam novas redes de apoio por meio das casas. Cada uma delas possui figuras mais experientes que são responsáveis por acolher quem é mais novo, a mãe. Nesse âmbito, se passam diversos conhecimentos que vão desde como se aprimorar para a competição até aconselhamento amoroso.

Isso é exemplificado na série Pose, que retrata essa subcultura entre o final dos anos 80 e o começo dos 90. Há diversas discussões em que a questão do “realness” sai do contexto dos bailes para a vida real. 

Como diversas personagens são mulheres trans, muitas vezes elas enfrentam desafios não apenas pela sua identidade de gênero, mas sim pela sua capacidade de “emularem” uma mulher cis, ou seja, a sua passabilidade. Ao longo de duas temporadas, a narrativa mostra que esse fator pode ser um divisor de água na vida dessas personagens. 

Essa característica determina as oportunidades que elas recebem e a forma como são tratadas em seus relacionamentos. Se quisessem adquirir uma passabilidade, essas mulheres precisavam aprender diversos comportamentos. Isso vai desde a escolha de roupas e maquiagens, até a escolha de fazer uma cirurgia de redesignação sexual ou não. 

Na medida em que se observa a interação entre essas mães e filhas que não possuem laços consanguíneos, fica muito explícito como a performance de gênero é uma técnica. Afinal, elas vão progressivamente aprendendo maneiras mais eficazes de lidar com os próprios corpos, pensar o seu lugar no mundo e fazer com que os outros as vissem da maneira como gostariam.

O mesmo ocorre com gays e lésbicas em uma escala menor, seja na ficção ou na vida real. Em diferentes contextos, é preciso negociar a expressão da sua identidade para obter mais oportunidades.

Assim, a técnica de supressão dos trejeitos se mostra um componente marcado dessas vivências, pelo menos até o início do século XXI.


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