Tive a fortuna e boa sorte de poder viajar desde muito nova e de ter tido a oportunidade de morar fora do Brasil e, no que diz respeito as técnicas do corpo, nada me impressionou mais que a dança.
Sendo nascida e criada no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, a música e a musicalidade do corpo não me são estranhas. Cresci ouvindo Novos Baianos e, mais velha, adorava funk e gafieira. Por mais que nunca tenha ido a um baile funk, os passos não me eram estranhos. Depois de determinado momento ficou impossível, também, resistir ao carnaval carioca, seja de rua seja ou na avenida. Não só aprendi a sambar como aprendi a me achar e a achar outros no meio de uma multidão delirantemente engajada em pular e divertir-se até o amanhecer. E, vou te contar, isso requer muita ginga!
Esses movimentos sempre me diferenciaram quando viajava para fazer os famosos intercâmbios internacionais. Não havia colega que não se empolgasse em dançar comigo, ou que não confiasse em abrir caminho no meio de uma multidão fazendo compras de Natal em Oxford Street. Sinceramente, me achava o máximo. Ainda mais, sinceramente, ria internamente de alguns deles e me impressionava em quão travados eram – não me orgulho disso.
Aos 25 anos fui morar em Milão, onde residi por 3 anos. Lá convivi de forma mais intensa com diversas nacionalidades e, trabalhando com compras de moda, conhecia muita gente e, especialmente, negociava com muitos. Mais uma vez, o jogo de cintura veio em meu auxílio. Percebi que a forma que eu falava, que usava as mãos, que me sentava, encantava meus pares, acostumados a movimentos rígidos e fixos de países cada vez mais ao norte – especialmente russos. Tive muitas vantagens por isso, não apenas por uma desenvoltura maior, que orientais e europeus não conseguiam ter, como meus movimentos formas fluidas e mais relaxadas chamavam atenção e inspiravam confiança.
Aí veio o momento que estourou minha bolha de otimismo: em 2015 me mudei para Uganda, na África. Percebi que, ali, a travada era eu. Em qualquer aspecto! Eles se mexiam mais livremente, dançavam de forma a dar a impressão de não terem ossos – inclusive pessoas com corpos que, no Rio de Janeiro, seriam considerados muito avantajados. Homens fazendo movimentos que seriam considerados, no Brasil ou Europa, femininos – eles rebolavam muito mais que elas. Além disso, falavam com tanta liberdade e tão rápido que muitas vezes me vi fechando negócios que nem eu entendia o que estava acontecendo.
Quando fui conversar com meus amigos locais a respeito dessas impressões, eles me explicaram que tais movimentos estavam na cultura deles há muito tempo, foram simplesmente transportados para outros momentos que existem na vida moderna. Movimentos de danças cerimoniais, em casamentos ou funerais, que viam seus familiares fazerem e eles próprios tinham seus papéis desde crianças, estavam tão enraizados neles que o mais comum seria se movimentar assim para dançar em uma festa, também. Pedi que me ensinassem, então. Caí algumas vezes e minha lombar gritou de dor por alguns dias.

